Muitos não devem saber, mas eu moro numa pacata cidade do interior da Paraíba. Se o morador de uma cidade do interior de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, já acha que as coisas demoram bem mais pra acontecer, quando acontecem, imagina como as coisas são por aqui. Além de tudo demorar quatro vezes mais de tempo para acontecer, 90% do que acontece é apenas manifestação de coisas que estão sendo badaladas na mídia.
Pra diminuir a abstração, vou exemplificar de uma forma bem prática: cinema. Em um estado como a Paraíba, em que o número de salas de cinema é limitado e a busca mais ainda, os filmes que entram em cartaz sempre são aqueles que estão nos holofotes. Aquele que passa matéria na Globo, que todo mundo comenta em tudo quanto é site de notícia etc. Se algum filme menos badalado é lançado e você quer assisti-lo, desista: este filme não entrará em cartaz. Claro que a situação na capital do estado, a ilustre cidade de João Pessoa, a coisa é um pouco diferente. Mas em Campina Grande (cidade mais próxima a mim, onde posso freqüentar um cineminha, comer umas pipocas e sentir a ausência de uma namorada na cadeira ao lado, snif… snif…) a situação é bem esta mesmo. Até hoje espero a estréia de “Coração Vagabundo”.
Mas este não é o fim, sempre resta uma solução. Após a temporada nos cinemas, sempre há a possibilidade de recorrer ao bom e não tão velho DVD. Porém, este último recurso requer bastante “recursos”, já que o único meio de adquirir algo “não badalado” é recorrendo às lojas online, já que até mesmo em locadoras (algo em extinção) alguns títulos não chegam. É evidente que isso envolve questões de mercado, a velha lei da demanda, mas o fato é que não conseguimos consumir o que realmente gostamos. Somos sempre obrigados a consumir o que decidem ser o melhor para nós.
Ou éramos, porque com internet banda-larga a coisa muda de figura. Qualquer PC conectado à web, com um mínimo de conexão estável e que não tenha bloqueio à tecnologia p2p, iguala um indivíduo do interior a um da capital em termos de consumo cultural. Agora esse cara conectado à web lá em Itapipoca poderá ver o filme que quiser, ouvir a música que quiser, ler o que quiser.
Para aqueles que já estão querendo levantar o dedo e questionar o meu sutil apoio à pirataria, digo de antemão: sim, eu apoio a pirataria (em termos, evidentemente). Somente o compartilhamento via p2p é capaz de proporcionar o acesso igualitário aos bens culturais que a humanidade está produzindo. Por mais que isto implique numa absurda queda de arrecadação por parte dos produtores, eu sempre prefiro pensar sob a perspectiva do cara que não tem acesso a coisa alguma e a internet proporciona esse acesso. Vejamos meu caso: minha cidade não tem TV a cabo, mas eu adoro algumas séries estadunidenses. Como assisti-las então? Esperar o milagre de algum canal aberto comprar os direitos da minha série favorita? Ora, nada disso. Hoje posso assistir cada episódio quase que instantaneamente à sua transmissão, tudo graças ao torrent. E além disso, ainda compartilho esse material com amigos que também gostam da mesma série e não têm banda-larga para baixar e assistir.
Sei que há a argumentação que esse uso “pessoal” é apenas uma parcela muito pequena da pirataria. Mas vamos pensar em outros termos, para vermos se a visão da pirataria como “grande vilão” ainda se sustenta. Pensemos no caso de um operário que mora em uma grande cidade qualquer, como Recife ou São Paulo. Ele trabalha quase que todos os dias da semana para ganhar um salário que mal dá pra alimentar e vestir a sua família. Como podemos exigir que esse cidadão pague 6 ou 8 reais pra ver um único filme? Ou 30 reais para ouvir um CD? Neste sentido, o camelô fará o mesmo papel da banda-larga, igualando as possibilidades, proporcionando o consumo de cultura independente do poder aquisitivo. Lógico que esse tipo de pirataria causa prejuízos absurdos aos produtores e aos governos, e acaba enriquecendo um monte de gente que não moveu uma palha para produzir nada além daquelas capas mal-impressas e daquelas mídias baratas. Entretanto, como se diz por aqui, “aí já são outros quinhentos”. A pirataria iguala as classes em termos de acesso à cultura, isso é fato.
Pra mim, típico matuto do interior paraibano, a pirataria do meu dia-a-dia abriu as janelas da minha vida. Hoje conheço e tenho acesso a toda uma produção cultural que, morando onde moro e ganhando o dinheiro que ganho, dificilmente eu poderia consumir. Agora me dêem licença, que tenho uma de assistir ao episódio de The Big Bang Theory desta semana.










Adorei o texto, realmente a Internet é uma caixa de pandora que não pode mais ser fechada, Ou o mercado repensa suas estratégias ou a pirataria continuará vencendo
Bom post, retrata fielmente a realidade que a maioria vive em relaçao a aquisiçao de conhecimento.
Se nao fosse pela internet, eu nao teria oportunidade de conhecer muita coisa, seja por falta de oportunidade (tbm moro em interior), seja por falta de grana.
Quanto ao mercado e industria de produçao-distribuiçao de conhecimentos (exeto, a meu ver, os jornais, por enquanto), sinceramente, desejo que morra o mais rapido possivel, pois mais atrapalha que favorece atualmente (vide os jabas da vida em relaçao a musicas).
Assino embaixo.
Somos todos piratas =)
Adorei Rodrigo, muito bom. =)
Sou do interior de Pernambuco e lá não tem cinema ( é bem isolada ), acho que a cidade mais próxima é Patos – PB, mas tem internet ( risos ). Corcordo em número, gênero e grau com você, não é apenas a questão de ser contra ou a favor, mas é indubitável que precisamos desse meio para termos acesso à cultura que é nossa por direito, as pessoas veem a pirataria como crime organizado e não é bem assim, tem seu lado positivo também, além da possibilidade ao acesso de conteúdos reservados a elite, a pirataria é uma fonte de sobrevivência para muitas pessoas que estão desempregadas, principalmente em cidades do interior. Eu sou a favor!!!!