Não vou ficar aqui caindo no lugar comum de reafirmar o que todo mundo já sabe: o cinema nacional de uns anos pra cá tomou um fôlego daqueles e vem produzindo obras magníficas. Tá certo que 90% dessa nova safra cinematográfica brasileira, que chega nos olhos do grande público, é no estilo “Hollywood-like”, ou seja, cinema hollywoodiano produzido em outro país que não os EUA, se é que dá pra me entender.

Contudo, não sou daqueles sisudos pseudo-intelectuais brasileiros que acham que tudo que nós produzimos é ruim, ou que tudo o que sai de Hollywood (e similares) é lixo cultural, de forma alguma. Filmes de Hollywood (e alguns que tentam seguir o mesmo estilo) são muito bons sim senhor. No Brasil, veja-se o que acontece com filmes como “Se eu fosse você”, “Mulher Invisível”, “Sexo, Amor e Traição” e toda uma leva de filmes que seguem o padrão estadunidense de fazer cinema e são muito bons.

Mas o que quero falar não é bem isso. Até mesmo porque o filme que me motivou a escrever este texto não segue muito a lógica de que falei nos parágrafos anteriores. Estou falando de “Estômago”, filme dirigido por Marcos Jorge e lançado em 2007 no interno e externo.

Como sugere o título, este é um longa sobre comida. Raimundo Nonato, um nordestino recém-chegado na cidade de São Paulo, descobre na metrópole que ele é um talento na cozinha. Começa em um boteco, onde é explorado pelo dono e suas coxinhas fazem o maior sucesso. Logo em seguida ele é contratado pelo dono de um restaurante italiano, e lá começa a aprender maiores requintes da culinária.

A narração da história de Nonato torna-se ainda mais interessante pelo recurso de temporalização da narrativa, que ora trata de Nonato em São Paulo, ora trata de Nonato na prisão. Sabemos que a prisão é posterior à chegada do personagem na cidade de São Paulo apenas por um fato: ele já sabe fazer muita coisa na cozinha. E cada prato, cada quitute, cada tempero, é um fio condutor que revela um pedaço da história do nordestino cozinheiro e o que o levou até a cadeia.

Apenas pela genial utilização do recurso temporal, o roteiro deste filme já merece os maiores elogios. Entretanto, não é apenas um bom roteiro a matéria artística que compõe o melhor filme brasileiro no ano de seu lançamento. Cenário, fotografia, música, tudo perfeito. Aliás, nada mais sugestivo do que a música tocada sempre que Nonato prepara um bom prato.

Outro fator que merece os mais infinitos elogios é a atuação. Todos os atores são impecáveis, e olha que não tem nenhum “grande nome”. Aliás, o ilustre desconhecido das telinhas (plim-plim), João Miguel dá um verdadeiro espetáculo de atuação no papel do nordestino Raimundo Nonato. Impressionante como o personagem ganha vida e veracidade na pele deste ator.

Um ponto que eu não podia encerrar essa resenha sem salientar é o quesito “palavrão”. Como todo bom cinema urbano ambientado no Brasil contemporâneo, os palavrões são uma constante durante todo o filme. Porém, é o primeiro filme que vejo os palavrões serem ditos com extrema naturalidade todas as vezes, e que os também são inseridos numa contextualização inteligente, sem gratuidade.

Por fim, posso apenas recomendar. Quem ainda não assistiu, corra e vá correndo assistir essa maravilha do nosso cinema. E quem já assistiu, que tá esperando? Corre e vai assistir novamente, afinal as nuances captadas na segunda vez sempre enriquecem ainda mais a nossa percepção da obra.

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Discussão ¬

  1. silvio feitosa

    Legal sua dica de filme, ainda nao assisti, mas, pelo geito que vc fala, parece ser realmente interessante.
    Assim que eu puder, irei assistir.
    Vlw!

Comentário ¬

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