Voltar à velha rotina de imersão em livros é sempre muito produtivo. Esta semana tive contato com um ótimo texto, daqueles que ficam grudados na gente e que temos certeza que dificilmente iremos esquecer. O texto de que falo é O rumor da língua, de Roland Barthes.

O melhor do texto de Barthes é o modo como ele traz os holofotes para cima do leitor e estabelece: o leitor é livre para fazer o que bem entender com o texto, e como texto podemos entender não só os livros, mas tudo que podemos ler (o próprio mundo é um texto). O importante da afirmação do autor é que, se pararmos e erguermos a cabeça (como ele próprio diz) não há como questionar a liberdade do leitor. Lembro muito bem dos meus primeiros anos de leitura, quando eu construía as minhas histórias em quadrinhos com os personagens dos gibis que comprava na feira.

Para os que produzem algum tipo de material para ser “lido” (leitura aqui entendida como algo muito além da leitura só de livro), como música, pintura, fotografia, propaganda, quadrinhos, arte ou entretenimento em geral, isso traz um imenso dilema: se o meu leitor, alvo principal de minha produção, cria e recria a minha obra o tempo todo, porque proibi-lo de divulgar, de tornar pública essa criação?

Quando eu iniciei com a publicação de tirinhas, antes do imenso hiato que separa minha antiga fase da fase atual, eu tinha um pensamento muito parecido com o de Charles Schultz, genial criador do adorável Snoopy. Pra quem não sabe, Schultz proibiu a utilização de qualquer um de seus personagens, apenas ele e o animador da série de TV, poderiam usar os adoráveis personagens de Peanuts. Com isso, o autor desejava que sua obra não fosse “pervertida”, que não colocassem seus personagens em rumos e caminhos muito diferentes dos que ele imaginou.

Isso é bom, se pensarmos que a obra manterá sempre  o seu espírito original, da mesma forma que o seu criador planejou. No entanto acarreta alguns problemas que, pondo em uma balança, acabam prejudicando mais a obra do que ajudando. Primeiro, devemos pensar no dano que isto causa para as gerações futuras. Hoje o acesso aos Peanuts já é algo difícil para a nova geração, tão habituada que está aos animes. Imagine então daqui a 10 ou 20 anos. Se os traços de Schultz e as animações derivadas de suas tiras já parecem retrogradas para a garotada, como será daqui a duas décadas? Se a produção de outras obras estivesse permitida pelo autor a coisa poderia ser muito diferente: a genialidade dos personagens de Peanuts poderiam sobreviver por um tempo indeterminado em tiras, revistas e animações (até filmes) que se repetiriam e se recriariam ao longo dos anos.

Evidentemente a liberação de obras por outros que não o criador pode gerar alguns constrastes demasiadamente bruscos quando comparadas criação derivada e criação original, um belo exemplo disso é a nova versão de desenhos feitas para o Pica-Pau no início deste século. A nova ave em nada se parece com o personagem perverso e carismático que encantou o público do século XX. Entretanto, o Pica-Pau continua lá e outras obras que resgatem o espírito original do personagem podem ser criadas.  Sem falar que as obras derivadas do original, muitas vezes, podem ser muito boas e até melhores. Vejam o que aconteceu com os Looney Toones, criação iniciada por Tex Avery. A Warner caprichou nas novas versões da série e conseguiu produzir desenhos tão bons quanto os originais (com todas as adaptações e inovações necessárias).

Hoje, como podem ver pelo que eu disse até aqui, meu pensamento é completamente diferente. Na arte e no entretenimento não vejo motivo para proibir outra pessoa de desfrutar, criar e produzir a partir de algo que eu fiz. Por que proibir o acesso das pessoas à minha criação só porque elas não podem pagar para ter acesso a elas? A resposta está na indústria do consumo e na sociedade que até bem pouco tempo seguia muito bem as regras do mercado capitalista.

Porém, graças à internet e principalmente à noção de “compartilhamento” que foi enriquecida e evidenciada em muito com o surgimento do projeto GNU e do Linux, após essas iniciativas do compartilhamento do saber, outras iniciativas foram surgindo e hoje nós encontramos inúmeras formas e projetos que incentivam a livre distribuição e utilização dos mais variados materiais.

Os gigantes da indústria ainda teimam em criticar esse modelo, alegando que isso tira os benefícios do autor. Sob o pretesxo imbecil de que assim o autor não terá reconhecimento – como se reconhecimento se traduzisse no número de zeros à direita que a sua conta bancária possui.

Alguns exemplos de como essas desculpas estão erradas podem ser encontradas aos montes por aí. Para iniciar, podemos falar do mais famoso: Linus Torvalds. Alguém acredita que o célebre criador do Linux seria tão famoso se não tivesse liberado a sua criação pra todo mundo usar, abusar e modificar? Certamente não. Outro caso significativo é do Radiohead, que lançou um álbum na web, que você pagava o quanto quisesse e se quisesse, e que redendeu mais lucro do que o álbum anterior, vendido nos moldes tradicionais. No campo dos quadrinhos, há a mais famosa das webcomics nacionais: os Malvados. André Dahmer, criador do site, não permite a livre utilização e criação de obras derivadas, mas permite a circulação das suas tiras pela web sem problemas (desde que o avise antes), e isso certamente foi o que o tornou mais popular e o faz hoje vender camisetas, canecas e livros das tiras que (pasmem) ele publica no site.

Enfim, isso tudo serve apenas pra tentar fazer você, que produz ou consome algum tipo de produto cultura, entender que há outras maneiras de se lucrar com a obra. Não é necessário amarrar ela em inúmeros “direitos autorais” para que os outros saibam quem a produziu (vaidade inevitável). Não é justo privar as pessoas de escutar uma música, ler um livro ou um quadrinho, ver uma pintura só porque elas não podem pagar por isso. Muito menos justo é impedi-las de expor suas “leituras” de produções que elas ouviram, leram e observaram.

Viva a criação e a liberdade. Isso é o que verdadeiramente movimenta o mundo.

É isso.

Ótima semana pra todos.

Um abraço.

Deus esteja

Compartilhe:
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • Facebook
  • Technorati
  • del.icio.us
  • MySpace
  • email
  • Twitter



Discussão (3) ¬

  1. Evan Henrique

    O homem vive de arte. Pagar por arte é pagar para viver. É, de um forma ou de outra, escravidão.

  2. Wallisson Narciso

    Não tenho como discordar de suas palavras, o reconhecimento sempre vem se a obra é digna disso. Certamente um dia as coisas vão mudar mais ainda, quem não tiver nada para compartilhar não terá espaço algum.
    O que aconteceu com o Radiohead foi um ótimo exemplo, acho que as pessoas se sentiram no dever de dar uma grana para os caras, pelo ótimo som deles e pela iniciativa.
    Ótimo texto Rodrigo, parabéns.

  3. Rodrigo

    Cara, eu vou dar um exemplo muito legal na minha universidade.
    De um certo modo o artigo que um professor meu fez foi parar na internet e o comentário que ele fez foi mas ou menos assim: o que vale mais, milhares de pessoas lerem o meu artigo por interesse ou ele ser publicado em uma revista com nome?
    Ou seja, atualmente vale muito mais a revista onde está o seu artigo científico do que a importância real dele para as pessoas…
    Acho que esse problema está em todos os lugares. Saber o valor real das coisas…

Comentário ¬

NOTA - Você pode usar estes marcadores:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes